quinta-feira, novembro 11, 2004

a outra Cardona, a do interesse público

No 'Os Estados da Nação'...

" O Diário da República, de 28 de Outubro (que apesar do Governo que temos ainda não tem manchetes) publicou no passado dia 28 de Outubro o seguinte:

"Aviso (extracto) n.º 9996/2004 (2.ª série). - Por despacho do director-geral de 6 de Outubro de 2004: Maria Celeste Ferreira Lopes Cardona, assessora jurista do quadro da Direcção-Geral dos Impostos - autorizada a passar à situação de licença sem vencimento de longa duração, com efeitos a 1 de Outubro de 2004. 18 de Outubro de 2004. - A Chefe de Divisão, Ângela Santos."

Pois bem... a ex-Sra Ministra da Justiça Celeste Cardona pode assim deixar (para já) o seu lugar de funcionária pública e ir a caminho da Caixa Geral de Depósitos. Tudo bem combinado, deixa o Parlamento, mete a licença sem vencimento e vai ganhar 3 mil e tal contos por mês.

E desta forma, tendo pedido licença sem vencimento (e sendo-lhe concedida, como foi) se for despedida recebrá uma choruda indemnização, o que não sucederia se em vez disso tivesse sido requisitada pela CGD à Direcção Geral dos Impostos.

É assim a defesa do interesse público!
"

Estanha-se que este caso particular não tenha seguido o procedimento normal, que é requisição... trata-se de uma diferênça bastante churuda, de alguns milhares de contos na conta final!!!

quarta-feira, novembro 10, 2004

Feijoada em PERIGO...

Aquisição de armas químicas pode dar cinco anos de prisão.
Governo prepara nova lei sobre armas químicas. Penas mais duras para quem produzir produtos tóxicos com o objectivo de fazer armas de guerra. Coimas podem chegar aos 300 mil euros.


Consumidores de cozido, rancho, feijoada e tripas à moda do Porto estão indignados com esta medida, prometendo uma manifestação junto à Residência Oficial do PM. "Isto não fica assim, faremos um protesto quimico em São Bento."

terça-feira, novembro 09, 2004

depois de Michael...

... Franz Ferdinand explodiram numa espécie de dance punk.

Após mais de uma dezena de cd's, novos ilustres (des)conhecidos, ou não...


Snow Patrol - Final Strawn
Entranha-se, primeira reacção.




Jack Johnson - On and On
Simples! Apenas o prazer de cantar.


E num registo diferente...


Jane Monheit - Taking a Chance on Love
Possivelmente mágico!

Neste momento nas colunas... off he goes!!!

quinta-feira, novembro 04, 2004

sound off



@ A Brito

quarta-feira, novembro 03, 2004

Concorrência critica

"Finanças dão depósitos de tesouraria ao BCP
Os milhões de euros de organismos públicos passam para o BCP. Concorrência critica

O ministério das Finanças concedeu ao Millennium bcp o direito de captar depósitos dos «organismos públicos» dependentes da Direcção-Geral do Tesouro (DGT). Serão centenas de milhões de euros mobilizados em depósitos e geridos via banco tutelado por Jardim Gonçalves e que, até ontem, passavam pela Caixa Geral de Depósitos, CGD. De fora do «negócio» acordado com o Estado estão os restantes bancos privados.

Os serviços de Bagão Félix, o ministro da Finanças, confirmaram o «protocolo» com o BCP e afirmam que «muito brevemente» serão assinados protocolos semelhantes com a generalidade da banca privada. Mas esta intenção não acalma o mercado. Altos quadros da banca comercial, concorrentes do BCP, já criticam o «documento» assinado com o BCP. «Candeia que vai à frente ilumina duas vezes», afirma um quadro bancário. Ou seja, quem chega primeiro ao mercado «tem todas as vantagens para tomar o grosso do negócio». Também os funcionários da DGT criticam o «acordo» com o BCP. «Está-se a tentar centralizar a tesouraria do Estado para um banco privado», acusam.

...

As Finanças confirmam a existência de um protocolo, mas recusam a sua divulgação (ver caixa). Garantem que o mesmo documento será estendido a «curto prazo» a outros bancos, mas alguns dirigentes da administração pública não escondem fortes criticas. Acusam o Governo de «entregar a uma entidade privada» boa parte da «centralização da tesouraria do Estado» e questionam «a eventual existência» de «comissões» por serviços prestados. «Seria compreensível que um negócio destes fosse alargado a instituições como o Montepio», afirmam, justificando o «carácter mais social dessas instituições
».
"

no Diário de Notícias

Esta é uma situação muito grave, mais do que a noticia em si pode transmitir. E já que trabalhei dois anos para um organismo público, julgo falar com conhecimento de causa.
Nem questiono a existência da Caixa Geral de Depósitos, cujo o único accionista é o Estado, mas sim o facto de há uns anos para cá os movimentos bancários feitos pelos organismos públicos deverem ser feitos Banco do Tesouro, um serviço da DGT ao qual os serviços acediam através de sistema de homebanking. O sistema funcionava, permitindo ao mesmo tempo à DGT uma aplicação e gestão eficaz dos excedentes de tesouraria, sem necessidade de recurso a crédito.

Com esta medida, acaba-se a boa gestão, pois a relação passa a ser entre o banco e o organismo sem que a DGT tenha acesso às contas dos organismos e aos tais excedentes e deitam-se os milhares de euros que custou a aplicação ao lixo e que teve como parceiro, creio, a Anderson Consulting.

Isto num País de Santanetes em que não se tem de explicar nada a ninguém...

terça-feira, novembro 02, 2004

Mais uma semana…


Após uma semana a chá e bolacha Maria, nada melhor que um fim-de-semana no norte para retemperar energias, o estômago e a alma. Não existe em Portugal paisagem mais bela que a do Douro, ir para norte da Covilhã em direção à Guarda e um verdadeiro elixir, com os seus tons avermelhados nos outono e na primavera e o verde e branco do inverno.

Hoje de manhã, o trânsito cortado na Vasco da Gama e as filas intermináveis devolveram-me à realidade... mas também se não fosse essa realidade, com daria valor ao resto.

terça-feira, outubro 26, 2004

The Lovers



1928 - Rene Magritte

segunda-feira, outubro 25, 2004

Recomendado...


Mais um bom filme brasileiro...
Carandiru

.

O filme baseia-se na experiência do Dr. Drauzio Varella como médico na prisão, culminando com o Massacre de 1992, que resultou no livro "Estação Carandiru".

"A 2 de Outubro de 1992 300 agentes da Polícia Militar de São Paulo irrompem pela prisão de Carandiru, pondo cobro a um motim, 111 pessoas foram mortas, nenhum deles era agente da PM.
Apenas três lados podem contar o que houve naquele dia: A polícia, Deus e os detidos; eu ouvi estes últimos. "
Drauzio Varella

quarta-feira, outubro 20, 2004

Diabo amarelo com olhos de fogo...

Fotografia: Joel Santos

Vês?

a pedido do Edmond...



Não tenho referencia do autor, mas é uma fotografia soberba.
A perfeição da forma.

para o meu amorzinho que está em casa doente...



O Amor cura muitos dos males deste mundo...
... infelizmente a gastroenterite não é um deles!


Prémios da semana...II


O prémio "isto precisa é de DOIS Salazar" vai para...

O ministro Morais Sarmento, porque todos concordamos que deve "haver limites à independência", quer dizer qualquer dia estamos perante "um modelo perverso" em que cada um pode formar a sua opinião e transmiti-la...
A Constituição da República Portuguesa aprovada em 1975 e
actualizada em 2004, essa malandra, tem o desplante de afirmar estas
barbaridades:

Art 2º: A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa”
(...)
Art. 38º:
(Liberdade de imprensa e meios de comunicação social)
1. É garantida a liberdade de imprensa.
(…)
6. A estrutura e o funcionamento dos meios de comunicação social do sector público devem salvaguardar a sua independência perante o Governo, a Administração e os demais poderes públicos, bem como assegurar a possibilidade de expressão e confronto das diversas correntes de opinião.


Quem se lembra do sketch do Herman Enciclopédia, em que o Jornalista que lê as noticias tem uma arma apontada à cabeça???
Já dizia o outro senhor....
"Um jornal pode ser muito mais que um jornal. Pode ser, sobretudo, um
organizador colectivo."

Lenine.

Prémios da semana...


O Prémio "se achavam que eu não podia ser mais estúpido enganaram-se" vai para...

O ministro Gomes da Silva... político tuga que sabe quando, como e onde afirmar, afinal "as cabalas existem independentemente da vontade subjectiva de as constituir".


terça-feira, outubro 19, 2004

No meio do stress de impostos e declarações electrónicas, a minha mente foi invadida de recordações do meu Avô. Aquela pessoa que me ensinou a jogar à bisca dos três, das horas infindáveis que passamos a jogar à sueca (sem nunca o conseguir vencer), de estar sempre a reclamar que não conseguia dormir (quando quem estava no quarto ao lado é que não conseguia... com o barulho do ressonar do “velho”). E de quando dava futebol na televisão, ele perguntar sempre “é o Benfica?” e eu ter de estar a explicar “não avô, o benfica foi ontem...”.

Não sei se já alguma vez tinha aqui escrito algo sobre o meu Avô, mas apeteceu-me. Não sei se por não conseguir disfarçar este sorriso estupido com que estou ou se por este nó que sinto na garganta...

Foi com ele que aprendi o significado de mortalidade. “Ninguém vive para sempre”.
Um grande Beijo Avô, onde quer que estejas.


em tempo de crise...

O jornal Público diz-nos que irá ser criado na Presidência do Conselho de Ministros o Gabinete de Informação e Comunicação (GIC), já aprovado pelo Conselho de Ministros e que custará, em 2005, cerca de dois milhões de euros, devendo ter entre 20 a 30 pessoas.
Com o objectivo de "elaborar planos de comunicação relativos às políticas públicas aprovadas e à acção governativa; estabelecer as relações com os meios de comunicação social; apoiar assessorias e outras estruturas de imprensa; planear e apoiar campanhas de informação a promover; organizar e apoiar conferências de imprensa dos membros do Governo, bem como sessões de informação e esclarecimento; elaborar conteúdos internos para plataformas de informação e comunicação governamentais; elaborar relatórios de imprensa; promover a formação profissional na área da informação e comunicação e tratar, arquivar e divulgar a informação produzida pelos órgãos de comunicação social"

Admiravelmente em tempos de crise, que não é para todos, e dadas as inerências desta "central" e dado que cada ministério já tem os seus acessores e gabinetes de imprensa/ comunicação, não passou pela cabeça emagrecer as já existentes estruturas!!!! è que em números, cada assessor da central irá custar ao herário público qualquer coisa como 66.667 euros/ano.

No comments.
... há que definir prioridades

segunda-feira, outubro 18, 2004

Conversas da treta

Vim agora do almoço e acabei de ter uma conversa da treta. Quem não tem uma boa conversa da treta? Às vezes são as que sabem melhor pois nem sempre apetece ter aquelas conversas filosóficas e místicas, por sentirmos o raciocínio preguiçoso. Mas para mim tem de ser uma boa conversa da treta. Não ter uma má conversa da treta. E isso tem-se quando somos abordado pela mesma pessoa munida das mesmas frases. Cada vez que encontro aquele espécime tenho de levar com a conversa do género: "Bem, estou cá com um sono que só me apetecia estar em casa" ou o pensamento do dia "foda-se, ainda hoje é segunda-feira e nunca mais chega o fim-de-semana"; e a discussão meteriológica do costume: "O tempo hoje está uma merda" ao qual se consegue responder às vezes "sim, tens toda a razão. O tempo hoje está uma merda". Mas o leque de conversas da treta expande-se até ao horizonte. Querem mais exemplos? "Estou farto disto."; "só me apetece é estar em casa ou na praia"; "A vida é uma merda"; "Nunca mais chega o final do mês"; "Não tenho tempo para nada"; "Não me apetece fazer a ponta de um corno", e outras frases célebres que perfumam um ar de uma tarde chuvosa outunal de segunda-feira.
Antes de mais nada, gostava de dizer, não vão os leitores acharem que sou presunçoso e detentor de toda a moral do mundo, que todas e muitas mais frases desta escadaria pensante já foram em tempos utilizadas por mim, e os meus amigos que o digam. Agora chegou a minha vez de acartar com este tipo de conversas e, sinceramente lamento sentir o estado depressivo das pessoas, mesmo das que nos são mais chegadas. Não deixam de nos preocuparmos por gostarmos delas. Agora para os que nada nos dizem, a nossa vontade é sempre outra: apedrejá-los verbalmente de "vai mas é trabalhar, ó meu calão" ou "eu se fosse a ti já tinha cortado os pulsos. Contribuias sem dúvida para o desenvolvimento do país" ou uma expressão antiga mas eficaz do tipo "pá, vai p'ró caralho!".

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Sou sincero quando digo que detesto ouvir gente com a mania que são melhores que os outros, e esses são sempre os primeiros aos quais tenho vontade felino de os derrubar psicológicamente e colocá-los no seu devido lugar, como um rapaz que conheci que cada frase que saía daquela boquita que só servia para fumar, era para fazer sentir os outros abaixo dele. ainda lhe cheguei a perguntar se tinha algum problema de afirmação, que falava dos Pós-Modernistas da música clássica, que utilizavam acordes de sétima de nona, invertidos com um ré-bemol ao quadrado, logaritmo de sete. Depois vieram os românticos e os Neo- Românticos que, ao contrário dos Pós- Modernistas utilizavam acordes de sétima maior dissonando com os de menor de nona. Lembro-me de ter contado estas merdas à minha namorada, e ela quase me matou de tanto rir, quando começou a burlar a conversa do outro dos pós modernistas com cenas do tipo "yá, yá, e depois vieram os visigodos e deram cabo disto tudo. Expulsaram os romanos e... olha, olha pergunta lá ao bacano se conhece o compositor chamado Zoloft". Foi um regabofe de riso.

Eu não sei se a melhor coisa a fazer será ouvir e esperar que o tempo passe depressa, ou arranjar uma desculpa evasiva como "Eh, pá. Tenho de me ir embora. É que tenho o javali ao lume", mas tento ser cuidadoso com o que digo às pessoas. Mas os únicos que eu tenho um ombro sempre disponível para virem chorar quando quiserem são os meus entes queridos. Os que não são, peço imensa desculpa mas não tenho lombo que aguente para ti, porque o que realmente gostavas de fazer na vida era beber copos, fornicar, ter luxo sem fazer nada para o ter, fumar ganzas, enfim: intoxicares-te. Infelizmente, meu caro amigo, a vida é mesmo uma merda, mas desculpa lá qualquer coisinha mas vou sair. Tenho de fazer para que a vida seja menos merdosa.

Adieu

Edmond

domingo, outubro 17, 2004

Gladiadores

Acabei de vêr a primeira parte do SLB 0 - FCP 1. Grande golo do MAcarthy que retirou o ânimo aos benfiquistas, mas deixando os pormenores do jogo de lado, ocurreu-me um pensamento sobre a evolução da humanidade.

Coliseu de Roma na altura em que a Europa era sucessivamente romanizada por esse império que reinou durante séculos.
Uma arena repleta de romanos ávidos de verem a morte ao vivo de diversas maneiras nos "jogos" que divirtam as massas. Cristãos devorados por esfomeados leões; gladiadores que lutavam pelo seu único bem que lhes pertencia: a vida. Vencia o mais forte, em que alma do mais fraco era ceifada pela Morte. Os gritos romanos e entregues aquela barbárie pulverizavam o ar de loucura. Aplausos soltos e aclamações ao seu gladiador preferido vencia mais um combate, mais uma batalha sobre a sua própria vida. A arena era manchada de sangue, onde lanças quebradas pela violência do jogo se espalhavam pela areia; cadáveres a serem arrastados para fora da arena por não terem já nenhuma utilidade. ISto, e muitos mais jogos de entretenimento de Morte, barbárie e grosseria para divertir um império infectado pela loucura que advém de excesso de poder.

Dias actuais.......

Estádio da Luz. 60.000 pessoas a torcerem pela sua equipa num Benfica - Porto onde os poucos adeptos portistas soltam gritos de alegria quando Macarthy marca um golo de levantar os próprios Deuses das bancadas. Acabou de serem expulsos um jogador de cada equipa por uma troca de gestos impróprios da conduta de um jogador. O relvado ainda continua verde e nem uma única gota de sabgue a manchar a arena. Mesmo que a equipa da maioria massa adepta do seu clube perca, todos regressarão a casa, pois descarregaram num jogo toda a lixeira acumulada nas suas rotineiras vidas. Coloriram com os cachecóis; brindam os seus jogadores de aplausos quando alguém brilha na saudável peleja.
Independentemente do resultado, toda a multidão regressará a casa com os lances na sua memória, com a cor, com os cânticos que ainda soam nas mentes dos amantes do futebol, e os gladiadores dos tempos modernos - os jogadores, descançam e treinam para o próximo "combate".

Quem diz que o mundo caminha para o fim, digo que discordo por completo. Vivemos uma época efémera com o grave e delicado cancro, que tem atordoado o mundo de violência com o terrorismo; morrem não sei quantas crianças à fome num segundo; corrupção em todos os sectores governamentais, o flagelo hediondo da pedofília, em que os pederastas ainda molestam milhares de crianças no escuro e em segredo.
Acredito na evolução da humanidade. No outro dia li num artefacto que "quando nasce uma criança nasce uma nova esperança". Não direi que o mundo é belo, pois não o é, mas acredito convictamente que cada um de nós pode contribuir para a sua evolução. Tapo os meus ouvidos a quem diz ignomínias sobre " isto cada vez está pior" sem mover uma palha. É claro que não sou detentor de uma moral bíblica pois isso ninguém, mas um simples acreditar já é uma contribuição significativa para a evolução da humanidade, porque enquanto formos vivos devemos dar um contributo ao mundo. Identifico-me com a frase de um filósofo grego que "não sou nem grego nem troiano; sou um simples cidadão do mundo".

Sendo mais realista, vejo no meu país pessoas a queixarem-se de barriga cheia. Para eles é-lhes mais fácil dizer que as coisas estão piores sem recorrerem às histórias comuns dos nossos pais na altura em que pão e água eram bens preciosos. Hoje, ouvindo o que as pessoas que muito o seu nariz torcem ao trabalho me dizem, talvez os bens preciosos sejam outros.
Séneca disse que o mais sábio dos homens é aquele que pouco tem. É utópico em dias que, felizmente, os restaurantes, cinemas, teatros, estádios de futebol, discotecas e outras arenas para continuarem a divertir as massas, as pessoas deixarem seus lamentos de lado, e olharem com uma mente aberta que uma grande parte da população mundial daría tudo para terem o seu "pouco" de que tanto se lamentam.

Vou acabar de ver o jogo, polémico por um golo claríssimo por parte dos "gladiadores vermelhos".

Edmond

sexta-feira, outubro 15, 2004

Bom fim-de-semana

Já não digo mais nada hoje pois não quero ser um chato para ninguém.

Arrivederci

Sê só tu

Tu não és nada tu,
Tu és como alguém,
Visto isto a olho nu,
Se não és tu,
Não és ninguém.

O seres tu, tu negas.
Porque não seres tu só?
Devias ter dó de ti,
Pois ninguém
De ti tem dó.

Que farás tu de ti,
Se alguém de ti gostar?
Vais gostar mais do alguém,
E de ti, tu,
Vais-te odiar?

É que alguém só é,
Quem ele quer ser.
Mas há quem seja,
Outro alguém,
Sem ninguém querer.

Mas para isso opta tu,
E opta por tu seres.
Porque se tu não fores,
Terás de todos,
Em ti seus quereres.

Edmond - 14/10/04


Tem dó

Tem de ti um pouco dó,
E não faças marcha à ré.
Se quiseres vem até mim,
(A seguir ao mi vem o fá)
Posso ser, quem sabe, o sol,
Tu o meu. Vá lá, vá lá!,
O Sol já tem por si,
De todos nós um pouco dó.

Tem de mim agora dó
Não sei se embruteci,
Dá-me o teu perdão. Dá, lá.
És só tu meu girassol
(Antes do sol é o fá),
Vem tu cá até mim,
Faz agora marcha à ré,
Vou por agora nisto fim,
Faz do ‘não’ agora ‘sim’
Minha flor, meu jasmim,
Diz sim ao beijo. Vá lá, tem dó

Edmond – 14/10/04

Ataques de Pânico

Há uns anos atrás descobri que tinha ataques de pânico. Mas só confirmei que sofria de ansiedade e de outras merdas más, quando resolvi ir ao médico. Nessa altura pensei estar insano.
Para vocês perceberem que doença é esta, imaginem o que é estarem num restaurante, daqueles jantares chatos e secantes do trabalho como o são nos restaurantes que, em vez de relaxar e descontrair, fico mais encolhido. E esse encolhimento vai sendo pregressivamente maior, à medida que o tempo passa e que se fica sem respiração. Inventa-se desculpas esfarrapadas para ir até à casa-de-banho, sem vontade de fazer qualquer necessidade fisiológica, ou vir até cá fora e usar a expressão "vou apanhar ar", e gera-se uma sufocante ansiedade que a merda do jantar acabe. Mas um ainda vai fumar um cigarro, outra levanta-se para tirar a bela fotografia, e nós ali apertados e encolhidos, a pensar que vamos morrer. Sublinhe-se que não se morre de um ataque de pânico mas a sensação que nós temos não desaparece, e as dores de cabeça são desesperadamente dolorosas.
Fartei-me de me esconder no meu sítio, pois mesmo nele encolhia. Sentia-me um bicho fechado num vidro qualquer para experiências laboratoriais; sentia que não era capaz de viver por não ser livre. Olhava em redor e as pessoas riam-se livremente e agonizava-me por não fazê-lo da mesma maneira. Pensava que os tempos do antigamente é que eram bons. Ria-me com vontade, corria, saltava, tinha amigos ao meu lado, tive namoradas como toda a gente, e de repente, vía o meu mundo a ruir aos poucos e aí, entrei em pânico. Foi quando percebi que não estava nada bem, e o desejo de morrer era enorme pois não fazia sentido viver daquela maneira maquinal, e pensava sempre que a culpa era só minha.

Decidi ir ao médico depois de uns anos (o meu primeiro ataque de pânico foi há 6 anos atrás dentro do cinema). Fui atendido por uma mulher asquerosíssima de fisionomia e maneira de ser. Lembro-me perfeitamente de ter vontade de me levantar e chamar todos os nomes aquela criatura, pois sentia-me doente num desespero de alguém que queria deixar de o ser.
Receitou-me uns anti-depressivos e uns ansiolíticos que aliviavam aquela balão que parece termos dentro do peito.
Ao princípio pensava não ser normal como as outras pessoas mas nunca me senti uma pessoa normal nem sei o e nem quero saber o que isso é. Na minha opinião, quanto mais uma pessoa é ela própria mais normal essa pessoa é. Para mim uma pessoa anormal é a que se esforça ser ou ter uma vida que toda a gente tem. E foi assim que começaram os meus ataques de pânico.

Sublinhe-se que cada caso é um caso específico. Acho estúpido generalizar por conhecer apenas um caso, mas digo-vos que muita gente tem o que ainda tenho, pois a doença é controlada e não curada. Note-se que é uma doença psíquica mas com o desenvolver pode tornar-se também física. Não sou especialista na matéria e não tenho sido acompanhado por um especialista de "gente insana", mas quanto mais a assumo e exteriorizo, mais "eu" me sinto; quanto mais faço o que me vai na alma, quanto mais escuto o que o coração me diz, mais normal me sinto e menos pânico tenho da vida. Qualquer pessoa é vulnerável à chamada doença do século, e se querem saber, não pesquiso nada sobre o assunto. Procuro sim aproveitar o tempo fazendo aquilo que quero e tenho vontade. E assim, fui fazendo progressos com a ajuda dos comprimidos para a loucura, como eu lhes chamo. Consegui voltar a estar com os meus amigos, travar conhecimentos com outras pessoas, colorir um pouco o meu mundo em ruínas, ouvir com interesse o que as pessoas me tinham para dizer, pois nessa altura eu nem conseguia ouvir as pessoas por estar concentrado na minha respiração.
Escrevo para dizer que tudo é possível para os que sofrem encolhidos nos seus cantos. O primeiro passo talvez seja aceitar que estamos doentes e não pensar que somos anormais aos olhos do mundo. É tudo uma questão de guardarmos o nosso estúpido orgulho no bolso e sim, ir ao psiquiatra (para os leigos, o psiquiatra é aquele que medica que sofre perturbações mentais e não o médico dos malucos).
Há pensamentos que trago sempre comigo durante os meus dias: "Não posso dizer que estou completamente curado"; "tudo o que é chão firme hoje pode não ser amanhã" e outros que me mantêm num certo estado de vigília que me alertam desta doença. É como o batedor que traz notícias de aproximação de um exército. Ele vem avisar-me se o pânico vai me atacar ou não e eu só tenho que me defender, mais nada.

Não menosprezem a doença. Mas acima de tudo e de todas as coisas... NÃO ENTREM EM PÂNICO!!!!!

Vive lá liberté!!!!!

Edmond



A Sala

Passei pela porta de madeira e entrei,
Na sala vazia só com paredes,
De um branco, simples e imaculado,
Decoradas só com uma lareira.
Por cima, as velas dormiam,
Mas já era a hora de despertarem uma chama,
Que iluminasse aquele lugar onde o mundo,
Dançava com a chama de tal fogueira.

Nunca tinha sido envolvido pelo calor,
Que da sua boca expelia o fogo reluzente,
E por cima, contentes, tremeluziam,
As velas que ondulavam a amarelada luz.
Enfeitavam as paredes de bruxuleantes,
Sombras que não ninguém importunavam,
Escutavam só as nossas conversas,
Escondidas como presentes para oferecer.

Eram só palavras que para dar eu tinha,
Nada mais trazia; só palavras e o meu ser,
E com o seu ser, ficamos juntos a olhar,
A maravilha de um pacífico fogo.
Açoitando a madeira, ouvia-se seu chicote,
Sulcando as costas da pobre madeira,
Só a água podia ser salvação,
Mas não era uma floresta. Era só uma migalha.

Mas se o branco parecia tão vazio,
Não dei conta, pois enchíamos bem a sala,
Ébrios de sorrisos e tranquila calma,
Que se expandiam pelos corpos nus e frios.
Mas já quentes do calor envolvente,
Entrelacei-me nos seus braços de pele fresca.
Fui bebendo o néctar de Dionísio,
E de tanto amor que era feito num pardieiro,
Fomos devagar colocando a nossa cor.

Deixaram as paredes de ser brancas,
Pois quase os anjos via, que tocavam,
Melodias celestiais em harmonia,
Soando suas trombetas de latão.
Lá fora o mundo estava quieto, adormecido,
Esquecido na imensidão de nosso canto,
Que pequeno, revelou ser para mim grande,
Pois grande era o que tinha no coração.

Brilho nos olhos; tranquila paz,
Partilha de angústias passadas,
Brincadeiras de crianças, que contentes,
Esquecem as mundanas ignomínias.
Gestos carinhosos, cabelos afagados,
Troca de carícias e abraços, embriagados.
O desejo de eterna ser a noite,
Tudo eram as minhas cores preferidas.

A areia foi deslizando pela ampulheta,
Subi degraus e tombei imensas vezes,
Sem promessas fui cumprindo meus deveres,
Fui ganhando força num dia de cada vez.
Mas cheguei ao topo, passando até as nuvens,
Fiquei perto do céu sentindo só a solidão,
Não querendo ficar por lá muito tempo,
Comecei a minha descida de tal montanha..

Falo de viagens que nunca fiz,
E de sítios onde nunca ouvi falar,
Mas na sala onde tudo era branco,
Fui até ao paraíso que parecia ser eterno;
De subir montanhas, suportando o frio,
Enfrentando ventos furiosos de seu ciúme.
Viajei com a alma; viajei com o corpo,
De mãos dadas com outro corpo e alma.

Nada é eterno. Nada é imortal,
Nem o homem nem a Terra cá ficarão para sempre,
Doloroso é assimilar certo destino,
De verdade absoluta, impiedosa Morte.
Sem darmos conta vamos sendo substituídos,
Por meros objectos que furtam nossa cor,
Ou nosso gosto pela decoração mais íntima.

Os sorrisos são retirados das paredes,
Para dar lugar a um quadro qualquer,
Que nem lá tem a nossa assinatura,
Comprado por tuta-e-meia numa qualquer feira.
As palavras são substituídas por um silencio,
Constrangedor para quem muito falava,
E onde estavam os anjos musicais alegres,
Estão uns cortinados que desmaiam nas paredes.

Candeeiros e caixas que vendem sonhos,
Que riem da nossa pura vegetação;
Já só se fala de contas que nos apertam,
O coração que pulsa de ansiedade.
Já não se salta para cima do canapé,
Livremente; está lá um mais arrogante,
Vistoso, luxuriante que escravizou,
Que dá sono, tédio e estúpido conforto.

Está composta assim a sala de agora,
O que vazio foi já hoje não o é,
Está vistosa, majestosa de bom gosto,
Mas caprichosa, sem me dizer palavra.
Pois no vazio é-me fácil preencher,
Com os encantos que em tempos cultivamos,
Não me curvo perante ela, a vaidosa,
Por ter saudade da simplicidade.

Edmond